
Brazelton fala que, fora o amor, a disciplina é o segundo presente mais importante que um pai dá a um filho. Mas o amor parece simples de dar enquanto a disciplina gera inúmeras perguntas complexas.
Os pais querem filhos bem comportados, mas não querem privá-los de sua criatividade, bom humor, exploração... Queremos crianças que entendam que limites existem, mas que têm a autoconfiança e motivação para se superar a cada dia.
Um limite nada mais é que um marco que não se consegue ou não pode ultrapassar. Superar a limitação de falta de mobilidade e aprender a andar é aplaudido com palmas e essa conquista é contada com orgulho por pais e familiares. Já ultrapassar a porta do banheiro e enfiar a mão no vaso, subir no banquinho e tentar subir na mesa, tentar “escalar” o berço e sair de dentro dele sozinho… esses são limites que não queremos que a criança “supere”.
Não é fácil para a criança (que está assimilando tantas novas informações) entender que tem algumas coisas que queremos que ela conquiste, enquanto tem limites que não podem ser ultrapassados.
Entender que limites devem ser instituídos não é a dificuldade. A maior parte dos pais, cuidadores e professores reconhece que limites são importantes e que devem ser implementados. A dificuldade está em definir e manter limites com consistência e eficiência. Não é uma tarefa fácil.
Um conceito importante é entender que disciplina e punição não são sinônimas. Disciplinar é ENSINAR. O objetivo é ensinar à criança até que ela consiga alcançar a autodisciplina. No entanto, é importante lembrar que isso não se alcança de uma vez! É um longo processo e educar, ensinar e disciplinar implica em repetir, repetir e repetir...
É com quem amamos mais e temos mais certeza de amor e segurança que temos coragem de testar nossos limites. O ambiente do lar, com os pais e a segurança do conhecido, é o local onde a criança mais testa seus limites e tem comportamento de "provocação".
Para que a criança entenda que o não é NÃO, ela tem que estar certa da sua segurança em instituir o não. Se um limite é bem definido e você tem certeza e segurança daquele limite, o seu filho vai entender que aquele limite é real. Se você variar, demonstrar insegurança, tiver dúvidas no limite, seu filho vai perceber sua incerteza e irá ter mais dificuldade de respeitar o limite.
Talvez a coisa mais importante no estabelecer limites seja de escolher suas "batalhas". Não diga não para tudo. Guarde energia e esforço para as coisas que realmente são importantes. Mas uma vez dito não, o não deve ser não. Quando mudamos de postura, mostramos incerteza ou desistimos de um limite à criança recebe uma mensagem de dúvida e não consegue assimilar o limite.
Aprender um limite - que é um dos objetivos da disciplina e autodisciplina - passa por algumas etapas. Primeiro a criança "testa" os limites explorando o ambiente onde ela vive. Uma vez recebe uma reação (desaprovação, não, remoção física do local, etc) ela passa a brincar com o limite e "testar" os cuidadores. Ela brinca com o limite com o intuito de gerar uma reação por parte do adulto e assim ela consegue compreender melhor o que pode ou não fazer. Só depois de passar por esse período de teste a pessoa é capaz de internalizar o limite e, sendo assim, se auto-regular de forma a respeitar o limite imposto.
Muitas vezes pais e cuidadores não compreendem o processo e acham que a criança está os "desafiando" com rebeldia. A verdade é que é necessário ter paciência e tolerância. Repetir... Repetir... Repetir.
Há muita preocupação com relação a excesso de liberdade ou excesso de rigidez. É importante colocarmos limites, mas é também essencial que a criança não seja "quebrada". Devemos nos preocupar e considerar que pode estar havendo excesso de rigidez, quando uma criança é excessivamente quieta e tem medo de expressar seus sentimentos, quando há muita sensibilidade a críticas, quando a criança não o testa como seria o usual para a idade dela, quando a criança não tem senso de humor ou alegria, quando a criança passa grande parte do tempo irritada ou ansiosa, quando há sinais de pressão e/ou opressão em outras áreas (sono, alimentação) ou começa a apresentar sintomas de regressão ou quando a criança está excessivamente agressiva.
Não tem receita de bolo para educar e disciplinar. Mas é importante lembrar de respeitar e compreender a fase de desenvolvimento que a criança se encontra nela - não se pode exigir mais do que a criança é capaz de fazer. É importante respeitar o temperamento da criança - crianças diferentes respondem de forma diferente. Seja um exemplo. Quando seu filho está com outras crianças dê espaço para que, dentro de um limite razoável, elas resolvam os conflitos entre si. Seja firme. Se necessitar conter a criança para que pare com um comportamento que considera inaceitável, seja firme e tenha convicção (por exemplo ao segurar a mãozinha para evitar que dê tapas em colegas ou em você). Ao término, explique novamente porque o disciplinou e, na medida em que a criança cresce, peça a ela que repita e te explique o que ela fez de errado. Lembre de dizer sempre que o ama... Aos poucos ele passa a compreender o limite como prova desse amor.
E, finalmente, lembre de reforçar e estimular todo comportamento positivo e toda vez que a criança conseguir se autodisciplinar e limitar uma ação que ela sabe ser errada.




